2007-20

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Monumentalidade como coletividade | Monumentality as Collectivity, 2018
[O MASP de Lina]

O prédio de meia-idade, meio século. Nem faz tanto tempo assim. O desmanche do antigo belvedere, ainda vivo na lembrança das crianças de ontem, e o levante da caixa flutuante. O índice e o ícone. O monumento carrega a história que parte do povo rapidamente esqueceu. A escada em L na arquitetura moderna, com vocação a púlpito. Dela se vê o vão magistral, intervalo pulsante entre avenida e infinitos edifícios, onde repousa a pedra. O fluxo, as pessoas, os burburinhos e a pedra. Um monolito insólito, improvável, silhueta gorda, testemunha vertical de um sem fim de coisas. Com pedrinhas ao redor que parecem presentes de natal. O vão palco, cenário, plateia das frequências ritmadas que fazem da laje um lençol. Estrutura dinâmica que abriga esquerdas e direitas.
Dos registros de sua construção, homens, sempre eles, devidamente identificados, até aqueles que mal se veem as canelas. Já a mulher de corpo inteiro no canteiro da obra, anônima. A exceção é a Dona Lina, que mesmo assim se chamava e era chamada de “o arquiteto”.
O belvedere é o vão. 50 anos depois. Muitas pessoas que não participaram dos fatos não se sentem parte da história. Dentro e fora do museu, personagens e ameaças se repetem, ou quem sabe nunca saíram daqui. Mais um golpe, velho discurso de ódio. O prédio de colunas vermelhas deve ser chamado de comunista outra vez. A pedra amanheceu pixada com uma foice e um martelo. Ela e as paredes daqui certamente se lembram do que parte do povo rapidamente se esqueceu. Povo que desce na estação Trianon sem notar que ali é o lugar para onde a Dona Lina queria que o povo fosse.
Arquitetura para abrigar e fabricar história. Corpo presente no espaço da cidade. Monumento quer dizer advertência! Monumentalidade como coletividade, disse o engenheiro Suzuki após Lina Bo Bardi. Corpo vibrante de concreto, vidro, obras de arte e gente, muita gente.
A pedra repousa na palma da mão da arquiteta. Tal fotografia indica a porta do banheiro das funcionárias e vigia o corredor estreito. A intensidade da mirada da autora daquele lugar é uma presença penetrante que transcende tempos e materialidades. Ainda bem, porque o anacronismo é grande. 50 anos que vão e vêm numa velocidade estrondosa.

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Convidada pela curadoria do MASP a realizar um ensaio fotográfico para uma publicação por ocasião dos 50 anos do edifício na Avenida Paulista, passei um mês hospedada em São Paulo, um mês no museu. Desde o princípio, ficou claro que o meu projeto não se contentaria em retratar apenas a arquitetura. O que faz do MASP um ícone não é só a edificação, mas seu corpo ativo na sociedade, composto pelas pessoas que o frequentam, mas especialmente por aquelas que o habitam e que atualizam a sua história a diário. Quis então conhecer o museu guiada por quem nele trabalha. Entre outubro e novembro de 2018, convidei todes trabalhadores a participarem voluntariamente da minha proposta. Eu queria fotografá-les em algum lugar próprio, de relevância, para que eu pudesse conhecer o prédio através de suas escolhas e relatos pessoais e profissionais. Pedi que cada um dirigisse o seu retrato. Eu me contentaria em observar, escutar e registrar.
Escolhi usar uma câmera analógica de médio formato para que a imagem aparecesse apenas no final, após a revelação dos negativos, quando já de regresso à casa. Também quis uma maneira não bidimensional de registrar os nossos encontros. Todes foram convidades a gravar em áudio o que imaginavam ser a sua fotografia; que descrevessem o porquê do lugar escolhido para o retrato.
Um total de 96 fotografias foram publicadas no livro. Este projeto é uma homenagem aos 50 anos do edifício da Dona Lina e um salve a todxs que fazem parte dessa história, eu incluída.

Agradeço ao MASP pelo convite, apoio e acolhimento, permitindo que eu também faça parte de sua história; a 139 trabalhadores que participaram voluntariamente deste projeto; a Leonardo Antiqueira, Marcello Israel, Paulo César Mafra de Matos e Oswaldo Lara, ainda que não impressos em papel; a Marcelo Suzuki, Marina Grinover, Nair Benedicto e Roberto Rochlitz pela generosidade; a Natália Tonda pelos filmes extras; a Ímã, Gibo e Bete Savioli pelos serviços laboratoriais; a Júlia Vaz pela hospedagem em São Paulo; a Nico Espinoza pelas gravações em áudio e pela parceria e amor 24/7; e a Pilar, nossa parceirinha e assistente.
Agradecemos à Dona Lina e ao Professor Bardi.

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The middle-aged building, half century. Not that long ago. The dismantling of the old belvedere, still alive in the memory of the children of yesterday, and the raising of the floating box. The index and the icon. The monument carries the history that part of the people quickly forgot. The L staircase in modern architecture, with pulpit vocation. From it we can see the masterly span, a pulsating interval between avenue and infinite buildings, where the stone rests. The flow, the people, the buzz and the stone. An unusual monolith, improbable, fat silhouette, a vertical witness to an endless number of things. With little stones around that look like Christmas presents. The vain stage, scenery, audience of the rhythmic frequencies that make the slab a sheet. Dynamic structure that shelters lefts and rights.
From the registers of its construction, men, always, duly identified, to those who barely see the shins. The full-body woman on the construction site, anonymous. The exception is Dona Lina, who even so was called "the architect".
The belvedere is the free span. 50 years later. Many people who did not participate in the events do not feel part of the story. Inside and outside the museum, characters and threats are repeated, or who knows never left here. One more blow, old hate speech. The red column building must be called communist again. The stone dawned spraypainted with a scythe and a hammer. It and the walls here certainly remember what part of the people quickly forgot. People coming down at Trianon station without noticing that this is the place where Dona Lina wanted the people to go.
Architecture to house and fabricate history. Body present in the city space. Monument means warning! Monumentality as a collective, said engineer Suzuki after Lina Bo Bardi. Vibrant body of concrete, glass, works of art and people, many people.
The stone rests in the palm of the architect's hand. Such a photograph indicates the bathroom door of the employees and watches the narrow corridor. The intensity of the author's gaze of that place is a penetrating presence that transcends time and materialities. Good, because the anachronism is great. 50 years that come and go in a thunderous speed.

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Invited by the curators of MASP to do a photo essay for a publication on the occasion of the 50th anniversary of the building on Paulista Avenue, I spent a month in São Paulo, a month at the museum. Since the beginning, it was clear that my project wouldn't be satisfied in portraying only the architecture. What makes MASP an icon is not only the building, but its active body in the society, composed by the people who attend it, but specially by those who inhabit it and update its history to daily. So I wanted to know the museum guided by those who work in it. Between October and November 2018, I invited all the workers to voluntarily participate in my proposal. I wanted to photograph them somewhere of their own relevance so that I could get to know the building through their personal and professional choices and stories. I asked everyone to direct their portrait. I would be content to observe, listen and record.
I chose to use a medium format analog camera so that the image would appear only at the end, after the negatives had been revealed, when I was back home. I also wanted a non-bidimensional way to record our encounters. All were invited to audio record what they imagined to be their photograph; to describe the why of the place chosen for the portrait.
A total of 96 photographs were published in the book. This project is a tribute to the 50 years of Dona Lina's building and a salute to all who are part of that history, I included.

I thank MASP for the invitation, support and welcome, allowing me to also be part of their history; 139 workers who voluntarily participated in this project; Leonardo Antiqueira, Marcello Israel, Paulo César Mafra de Matos and Oswaldo Lara, although not printed on paper; Marcelo Suzuki, Marina Grinover, Nair Benedicto and Roberto Rochlitz for their generosity; Natália Tonda for the extra films; Ímã, Gibo and Bete Savioli for the laboratory services; Júlia Vaz for the lodging in São Paulo; Nico Espinoza for the audio recordings and the 24/7 partnership and love; and Pilar, our partner and assistant.
We thank Dona Lina and Professor Bardi.