2007-20

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De Ciudad Abierta a Ventanas, 2019-

Exercício de observação inconcluso |
Inconclusive observation exercise
Ritoque, Chile

De Ciudad Abierta a Ventanas é um curto trecho de uma linha de trem paralela ao Oceano Pacífico no Chile. O percurso é caracterizado por uma paisagem mutante com três casos peculiares de ocupação contemporânea de território, marcados pela experimentação, conservação, apagamento, destruição e resistência.

"A cidade, seu enredo (ou não-enredo), sua arquitetura, e até seus laços sociais quase familiares, nascem da leitura do ecossistema e das condições espaciais do lugar, potencializando-as. Quase como um trabalho existencialista, a arquitetura desaparece sob uma arena que apaga os rastros, em uma canção de crescimento, de velhice, de morte, e novamente, de nascimento, na busca da criação constante. Assim como cada ser vivo é irrepetível, mas parte de uma comunidade, cada casa na Ciudad Abierta é única, mas formando uma comunidade."
[ASENSIO, Ana. Ciudad Abierta de Ritoque: paisaje habitado 44 años después. Tradução livre.]

Cheguei à Ciudad Abierta pela primeira vez em 2010, sem GPS ou qualquer mapa de orientação. De carro com um amiga, peguei a estrada de Concón a Ritoque e fui perguntando nos poucos estabelecimentos do caminho, até encontrar alguém que soubesse do que se tratava. Um único homem disse: “devem ser aquelas casas malucas construídas nas dunas”. Topei com um recinto isolado, fechado por um grande portão, de onde se viam “casas malucas” e esculturas à mercê do vento, intercaladas entre vegetações e dunas, com o mar ao fundo. Felizmente o portão se abriu. Percorri partes do terreno, entrei em algumas casas que estavam de fato abertas, cruzei com algumas pessoas que pareciam sair de uma conferência. Nada mais que isso. Quando voltei ao Chile para uma residência de 2012, tentei, sem persistência, me aproximar do lugar. Foram necessários nove anos desde aquela primeira visita para que, de fato, eu regressasse. Foi passando de carro novamente pela estrada de Concón a Ritoque que revi as dunas e suas “casas malucas”. Por intermédio de Fernando Espósito, arquiteto chileno residente no Brasil, ex-morador e professor da PUCV, atual professor da PUC Rio, que conheci a Andrés Garcés, diretor da Corporação Cultural Amereida e anfitrião do meu primeiro almoço de quarta-feira na Ciudad Abierta. Durante o primeiro semestre de 2019, frequentei muitos almoços de quarta-feira na Sala de Música e espero ter a oportunidade de voltar muitas vezes ainda.

Um grupo de arquitetos, artistas, filósofos e poetas radicados no Chile, liderado pelo argentino Godofredo Iommi, realizou em 1965 uma viagem pela América do Sul. Usando como mapa o desenho América Invertida, do uruguaio Joaquín Torres García, o coletivo propunha um novo entendimento das orientações geopolíticas estabelecidas no continente, questionando noções como fronteira e território. Em 1967, a partir da coleta de diversos textos, recortes e desenhos provenientes daquela que ficou conhecida como primera travesía, o coletivo criou o livro-poema épico que os denomina até hoje, Amereida, um neologismo entre Eneida e América. Instalados em Viña del Mar como membros do corpo docente interdisciplinar do departamento de arquitetura da PUC de Valparaíso, destacaram-se pelo ímpeto vanguardista em seus métodos educacionais, buscando mudanças junto à reforma estudantil da década de 1960, algo que se viu refletido também na vida social e política do grupo. Vivendo juntos em casas alugadas no Cerro Castillo, integraram "vida, trabalho e estudo" como filosofia e prática. Fundaram em 1971 a Ciudad Abierta, uma comunidade fincada em um terreno pantanoso nas dunas de Ritoque (a aproximadamente 30 km ao norte de Valparaíso) adquirido através da reforma agrária do governo Salvador Allende (1970-1973). O nome surge do filme “Roma città aperta”, de 1945, fazendo uma alusão a uma cidade sem muros, protegida pela hospitalidade e pela palavra. Tratava-se de um projeto independente, em parte financiado pela universidade, onde o coletivo passou a exercer a arquitetura como um evento colaborativo, efêmero e utópico, existindo fora dos limites da prática profissional convencional, como um laboratório experimental aberto também às artes e à biodiversidade. Regides por um estatuto rígido de ocupação e comunhão entre usuáries, habitantes e os quase 300 hectares de terra de parque costeiro, cultural e recreativo, são ciudadanes abiertes e amiges quem constroem e mantêm as hospedarias e espaços de convivência ao longo desses quase cinquenta anos.

Se a Ciudad Abierta é datada de 1971, a tão só 10 km dali, no que foi um complexo de veraneio popular construído por Allende, surgiu, em 1974, um centro de detenção para ex-líderes opositores à ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Há ciudadanes abiertes que dizem não ter conhecimento deste e de outros centros de detenção que a região abrigava de forma secreta, inclusive de um localizado próximo às casas do Cerro Castillo. No caso de Ritoque, a particularidade eram seus detentos, dentre eles, atores profissionais e dramaturgos detidos pelo conteúdo político de suas obras. Alguns influenciados por Augusto Boal, que havia dado aulas no Chile. Realizaram dentro do presídio uma série de peças e apresentações teatrais cujo público eram os próprios guardas de segurança. No espetáculo permanente chamado "El Pueblo de Ritoque", o centro de detenção se transformava em uma cidade protegida do resto do Chile. Como parte do roteiro, o prefeito fictício recebia os novos atletas que chegavam para participar de um exitoso campeonato e que, por deficiência dos meios de transporte, não iam embora jamais.

Uma linha de trem paralela ao mar conecta ambas cidades, a Abierta e o presídio Ritoque, demolido em 1988 com o plebiscito que marca o fim do período militar no país. Esta mesma linha férrea, hoje exclusiva para carga, termina a alguns quilômetros mais ao norte, na cidade de Ventanas, região conhecida como a “Chernobyl Chilena”, uma zona de sacrifício pelo seu potencial industrial altamente destrutivo onde 17 empresas contaminam simultaneamente.

Pela mesma linha de trem é possível realizar um exercício de observação visual e sonora, uma reflexão crítica espaço-temporal de uma paisagem mutante entre formas tão diferentes de se construir cidade, ocupar territórios e preservar santuários, algo tão recorrente no que conhecemos hoje como América. Pela mesma linha é possível conhecer histórias e personagens. Pela mesma linha é possível combinar cidade, hospitalidade, arte, arquitetura, antropologia, poesia, educação, paisagem, história, memória, apagamento, ditadura militar, indústria, crime ambiental, resistência. Paisagem partida entre o oceano, as dunas, as construções experimentais de Amereida, os bosques nativos e artificiais de eucalipto e pino, as chaminés esfumaçadas, o porto de Ventanas, e as mais diversas pessoas que compõem este curto e heterogêneo espaço. Que lugar essas localidades ocupam no imaginário coletivo? O que de fato teríamos para aprender de Ritoque?

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From Ciudad Abierta to Ventanas is a short segment of a train line parallel to the Pacific Ocean in Chile. The route is distinguished by a mutating landscape with three peculiar cases of contemporary occupation of territory, marked by experimentation, conservation, obliteration, destruction, and resistance.

"The city, its plot (or non-plot), its architecture, and even its almost familiar social ties, are born from the reading of the ecosystem and the spatial conditions of the place, empowering them. Almost like an existentialist work, the architecture disappears under an arena that erases the tracks, in a song of growth, of old age, of death, and again, of birth, in search of constant creation. Just as each living being is unrepeatable, but part of a community, each house in Ciudad Abierta is unique, but forming a community."
[ASENSIO, Ana. Ciudad Abierta de Ritoque: paisaje habitado 44 años después.]

I arrived in Ciudad Abierta for the first time in 2010, without GPS or any orienteering map. By car with a friend, I took the road from Concón to Ritoque and I asked in the few establishments on the way, until I found someone who knew what it was about. A single man said: "it must be those crazy houses built in the dunes". I stopped with an isolated lot, closed by a big gate, from where we could see "crazy houses" and sculptures at the mercy of the wind, interspersed between vegetations and dunes, with the sea in the background. Fortunately the gate opened. I walked through parts of the land, I entered some houses that were actually open, I crossed some people that seemed to come out of a conference. Nothing more than that. When I returned to Chile for an art residency in 2012, I tried, without persistence, to approach the place. It took nine years since that first visit for me to actually return. It was by car again on the road from Concón to Ritoque that I reviewed the dunes and their "crazy houses". Through Fernando Espósito, a Chilean architect living in Brazil, former resident and professor at PUCV, current professor at PUC Rio, I met Andrés Garcés, director of the Amereida Cultural Corporation and host of my first Wednesday lunch at Ciudad Abierta. During the first semester of 2019, I attended many Wednesday lunches in the Music Room and hope to have the opportunity to return many times still.

A group of architects, artists, philosophers and poets living in Chile, led by the Argentinean Godofredo Iommi, made a trip to South America in 1965. Using as a map the drawing Inverted America, by the Uruguayan Joaquín Torres García, the collective proposed a new understanding of the geopolitical orientations established in the continent, questioning notions such as border and territory. In 1967, from the collection of several texts, clippings and drawings from what became known as the "first crossing", the collective created the epic poem-book that calls them until today, Amereida, a neologism between Aeneid and America. Installed in Viña del Mar as members of the interdisciplinary faculty of the architecture department of the PUC of Valparaíso, they stood out for their avant-garde impetus in their educational methods, seeking changes along with the student reform of the 1960s, something that was also reflected in the social and political life of the group. Living together in rented houses in Cerro Castillo, they integrated "life, work and study" as philosophy and practice. In 1971 they founded Ciudad Abierta, a community located in a marshy area on the dunes of Ritoque (approximately 30 km north of Valparaiso) acquired through the agrarian reform of the Salvador Allende government (1970-1973). The name comes from the 1945 film "Roma città aperta", making an allusion to a city without walls, protected by hospitality and the word. It was an independent project, partly financed by the university, where the collective began to exercise architecture as a collaborative, ephemeral and utopian event, existing outside the limits of conventional professional practice, as an experimental laboratory also open to the arts and biodiversity. Ruled by a rigid status of occupation and communion between users, inhabitants and the almost 300 hectares of land of coastal park, cultural and recreational, are the "open citizens" and friends who build and maintain the inns and living spaces throughout these almost fifty years.

If Ciudad Abierta is dated 1971, only 10 km from there, in what was a popular summer complex built by Allende, a detention centre for former leaders opposed to the dictatorship of Augusto Pinochet (1973-1990) emerged in 1974. There are "open citizens" who say they have no knowledge of this and other detention centers that the region housed secretly, including one located near the houses of Cerro Castillo. In the case of Ritoque, the particularity was its detainees, among them professional actors and playwrights detained for the political content of their works. Some were influenced by Augusto Boal, who had given classes in Chile. They performed inside the prison a series of plays and theatrical presentations whose audience were the security guards themselves. In the permanent show called "El Pueblo de Ritoque", the detention center became a protected city from the rest of Chile. As part of the itinerary, the fictional mayor received the new athletes who arrived to participate in a successful championship and who, due to a lack of means of transportation, never left.

A train line parallel to the sea connects both cities, the Abierta and the Ritoque prison, demolished in 1988 with the plebiscite that marks the end of the military period in the country. This same railway, today exclusive for cargo, ends a few kilometers further north in the city of Ventanas, a region known as the "Chilean Chernobyl", a zone of sacrifice for its highly destructive industrial potential where 17 companies pollute simultaneously.

By the same train line it is possible to carry out a visual and sound observation exercise, a critical space-time reflection of a changing landscape between such different ways of building cities, occupying territories and preserving sanctuaries, something so recurrent in what we know today as America. By the same line it is possible to know stories and characters. By the same line it is possible to combine city, hospitality, art, architecture, anthropology, poetry, education, landscape, history, memory, erasure, military dictatorship, industry, environmental crime, resistance. Broken landscape between the ocean, the dunes, the experimental constructions of Amereida, the native and artificial forests of eucalyptus and pin, the smoky chimneys, the port of Ventanas, and the most diverse people that compose this short and heterogeneous space. What place do these localities occupy in the collective imagination? What would we really have to learn from Ritoque?