2007-20

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Carandiru, 2009–2013

Impressão com tinta de pigmento mineral em papel algodão | Printing with mineral pigment ink on cotton paper
110 x 140cm
Ed. 3 + 2 P.A.

Publicado | Published: “Textos escolhidos de Cultura e Arte Contemporânea” (v. 7-2, 2010); Travessias 2 (catálogo), 2013.

Exposição coletiva | Group show
Travessias 2 – Arte Contemporânea na Maré, Galpão Bela Maré, Rio, 13.04 - 23.06.2013
Curadores | Curators Felipe Scovino, Raul Mourão

texto versão pdf | Text English version pdf

É raro associar Carandiru a qualquer outro lugar que não à penitenciária em São Paulo. Neste ano de 2009, pouco se sabe e pouco se vê do Carandiru carioca, um terreno construído pela RFFSA, ligado diretamente à Estação da Leopoldina, que hoje abriga alguns barracões de escola de samba. Localizado próximo à Rodoviária Novo Rio, o complexo passa despercebido pela maioria dos que circulam por ali.

Na entrada principal, pessoas tomam Coca-Cola e jogam dominó em meio a carrinhos de comida estacionados. O mato alto cobre a linha férrea e é preciso andar um pouco para achar os barracões. O primeiro que identifico é uma nave sem cobertura. É a estrutura restante de uma enorme oficina de trens, que dá morada também a uma família e a pelo menos oito cachorros. Dizem que Pretinha comeu o coelho.

A intempérie desbota os adereços do carnaval passado, que agora parecem ser de 1985. Tecidos em cores vivas se tornam pastéis e, rasgados, revelam a carcaça de isopor. Mesmo decadente, a ideia de folia ainda está presente no que restou de folia, não porque o cenário é particularmente bonito, mas porque incita a imaginação. A sucata do ano passado serve de matéria bruta para as produções do próximo, fazendo com que a diversão nunca se acabe. Pelo contrário, o somatório e acúmulo num mesmo ornamento traz enriquecimento, pelo menos de história e memória.

Tento me desvencilhar do lado negativo de qualquer definhamento. Estou interessada na temporalidade da ocupação daqueles galpões, tanto no tempo histórico linear do lugar, como no movimento latente e frenético durante o processo de trabalho pré-carnaval, o que implica em arruinamento e empilhamento. Penso na oficina de trem e seus funcionários que foram substituídos por barracões de escola de samba e seus carnavalescos. Penso no chão de terra que se recicla diariamente sem nunca perder uma parte de sua composição original. Penso na intensidade dos quatro meses em que todos os esforços se concentram na árdua tarefa de produzir um espetáculo com carros e fantasias complexas que serão exibidas em um só dia, ou no máximo dois, numa cerimônia que dura menos de uma hora. Penso na concentração e na dissipação da presença humana. Penso nos enfeites que ficam, e no lixo que se revela quando o carro sai, deixando um desenho no chão. Penso num espaço que se contrai e que se dilata.

Detenho-me nas camadas temporais e arquitetônicas que se sobrepõem. O galpão principal é monumental, assim como a maioria dos carros e alegorias espalhados pelo interior. Parece uma fábrica de bonecos gigantes. Um mundo de ficção onde portas falsas conectam nada a lugar nenhum.

A área externa é um descampado onde plásticos, borrachas e paitês se amontoam e constroem cantos. Objetos de grande porte abandonados se destacam como esculturas no vazio. Navios naufragados e anjos. Vagões enferrujados e cobertos por mato se camuflam na paisagem. A paisagem transforma-os em colinas. Uma trilha comprida leva a uma civilização distante.

Carandiru é um lugar habitado, marcado pela presença e pela acumulação de tempos, impregnado de resíduos. Busquei fotografá-lo no recesso do carnaval, concentrando-me nos resquícios encontrados que poderiam contar histórias sobre o lugar. A fotografia, em sua capacidade de combinar outroras e agoras, encarna um instante, um relâmpago, apresentando uma cena onde o tempo fica em suspenso.

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Carandiru deixou de existir para dar lugar ao Porto Maravilha.

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It is rare to associate Carandiru with any place other than the penitentiary in São Paulo. In this year of 2009, little is known and little is seen of Carandiru carioca, a piece of land built by RFFSA, directly connected to Leopoldina Station, which today houses some samba school huts. Located near the Novo Rio Bus Station, the complex goes unnoticed by most of those who circulate there.

At the main entrance, people take Coca-Cola and play dominoes in the middle of parked food carts. The high undergrowth covers the railway line and it is necessary to walk a little to find the sheds. The first one I identify is a ship without cover. It is the remaining structure of a huge train workshop, which also gives an address to a family and at least eight dogs. They say Pretinha ate the rabbit.

The weather fades the props of the past carnival, which now seem to be from 1985. Fabrics in bright colors become pastel and, torn, reveal the Styrofoam carcass. Even decadent, the idea of revelry is still present in what is left of revelry, not because the scenery is particularly beautiful, but because it incites the imagination. Last year's junk serves as raw material for next year's productions, making sure that the fun never ends. On the contrary, the sum and accumulation in the same ornament brings enrichment, at least of history and memory.

I try to get rid of the negative side of any waste. I am interested in the temporality of the occupation of those sheds, both in the linear historical time of the place and in the latent and frenetic movement during the pre-carnival work process, which implies ruin and stacking. I think of the train workshop and its employees who have been replaced by samba school sheds and their carnivals. I think of the ground that is recycled daily without ever losing a part of its original composition. I think about the intensity of the four months in which all efforts are focused on the arduous task of producing a spectacle with cars and complex costumes that will be shown in a single day, or at most two, in a ceremony that lasts less than an hour. I think about the concentration and dissipation of human presence. I think about the decorations that remain, and the garbage that reveals itself when the car leaves, leaving a drawing on the floor. I think of a space that contracts and dilates.

I stop at the time and architectural layers that overlap. The main shed is monumental, as are most of the cars and allegories scattered throughout the interior. It looks like a giant doll factory. A world of fiction where false doors connect nothing to anywhere.

The outside area is a clearing where plastics, rubbers and sticks pile up and build corners. Abandoned large objects stand out as sculptures in the void. Shipwrecks and angels. Rusty, bush-covered wagons camouflage themselves in the landscape. The landscape turns them into hills. A long trail leads to a distant civilization.

Carandiru is an inhabited place, marked by the presence and accumulation of time, impregnated with waste. I sought to photograph it in the carnival recess, concentrating on the remains found that could tell stories about the place. The photography, in its capacity to combine once and now, incarnates an instant, a lightning, presenting a scene where time remains in suspense.

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Carandiru no longer exists to give way to Porto Maravilha.